Quem começa a estudar no Brasil logo tropeça numa confusão com os nomes das cartas do tarot: um livro fala em Os Amantes, outro em Os Enamorados. Um baralho traz O Pendurado, outro O Enforcado. Uma pessoa diz O Juízo, outra O Julgamento. E há quem jure que a carta II se chama A Papisa, enquanto o baralho comprado na livraria diz A Sacerdotisa. São cartas diferentes? Alguém errou a tradução?
Na maioria dos casos, ninguém errou. Os nomes mudam porque o tarot atravessou várias línguas e várias tradições antes de chegar até nós. Entender esse caminho ajuda a ler qualquer baralho com mais tranquilidade.
Primeiro, as cartas nem tinham nome escrito
As primeiras cartas de tarot foram pintadas nas cortes italianas do século XV, pra jogar. E aqui vai um detalhe curioso: nas cartas italianas mais antigas, em geral, os trunfos não traziam o nome escrito. Os jogadores sabiam de cor o que cada figura era. O hábito de escrever o título na carta é de origem francesa.
Isso explica por que os nomes italianos antigos variavam tanto de região pra região. A carta que hoje muitos chamam de Os Enamorados aparecia como l'Amore, o Amor. A figura pendurada de cabeça pra baixo era chamada de il Traditore, o Traidor. A carta do anjo com a trombeta era l'Angelo, o Anjo, ou le Trombe, as Trombetas. O velho com a lanterna podia ser il Gobbo (o Corcunda), il Vecchio (o Velho) ou il Tempo (o Tempo). Não havia uma lista oficial.
O francês do Tarot de Marselha
Com o tempo, os fabricantes franceses consolidaram um modelo de cartas que acabou batizado, bem mais tarde, de Tarot de Marselha. É nele que os nomes aparecem escritos e se fixam. A carta VI é L'Amoureux, algo como "o enamorado" ou "o apaixonado", no singular. A XII é Le Pendu, "o pendurado". A XX é Le Jugement, "o julgamento". A II é La Papesse, "a papisa". A I é Le Bateleur, o artista de rua. A XVI é La Maison Dieu, "a Casa de Deus". A carta sem número é Le Mat ou Le Fol. E a XIII, curiosamente, costuma vir sem nome nas versões desse padrão, embora o baralho de Jean Noblet, de por volta de 1650, traga escrito LAMORT, "a morte".
Muitas traduções e adaptações em português partiram desse universo francês, e por isso nomes como A Papisa e O Papa continuam vivos entre quem estuda o Marselha.
O inglês do Rider-Waite
Em 1909 saiu em Londres o baralho que se tornaria o mais difundido do século XX, o Rider-Waite, idealizado pelo escritor Arthur Edward Waite e ilustrado por Pamela Colman Smith. Nele, vários nomes mudaram de propósito.
A Papisa virou The High Priestess, a Alta Sacerdotisa, e perdeu a tiara papal. O Papa virou The Hierophant, o Hierofante. O Bateleur virou The Magician, o Mago. L'Amoureux virou The Lovers, os amantes, agora no plural. Le Pendu virou The Hanged Man, o homem enforcado ou pendurado. Le Jugement virou Judgement, e o próprio Waite, no seu livro, chama a carta de The Last Judgement, o Juízo Final. La Maison Dieu virou The Tower, A Torre.
Como boa parte dos baralhos vendidos no Brasil segue o Rider-Waite ou se inspira nele, muita gente conheceu as cartas pelos nomes traduzidos do inglês. E aí está a raiz de várias duplicidades.
Os pares mais comuns em português
Olhando pra esse caminho, as variações fazem sentido. Veja os casos que mais confundem:
| Arcano | Nome usado neste site | Outros nomes que você pode encontrar | De onde vem a diferença | |---|---|---|---| | II | A Sacerdotisa | A Papisa, Alta Sacerdotisa | La Papesse (Marselha) x The High Priestess (Rider-Waite) | | V | O Hierofante | O Papa | Le Pape (Marselha) x The Hierophant (Rider-Waite) | | VI | Os Enamorados | Os Amantes | L'Amoureux (Marselha) x The Lovers (Rider-Waite) | | XII | O Enforcado | O Pendurado | Le Pendu e The Hanged Man admitem as duas traduções | | XVI | A Torre | A Casa de Deus | La Maison Dieu (Marselha) x The Tower (Rider-Waite) | | XX | O Julgamento | O Juízo, Juízo Final | Le Jugement / Judgement; Waite também usa "The Last Judgement" |
Por aqui, o padrão é Os Enamorados, O Enforcado e O Julgamento. Os Amantes, O Pendurado e O Juízo circulam em outros baralhos e traduções, e nenhum deles está errado. A gente só escolheu um nome pra cada carta pra não embaralhar a cabeça de quem lê.
A troca entre a Força e a Justiça
Além dos nomes, há uma diferença de numeração que pega muita gente de surpresa. No Tarot de Marselha, a Justiça é a carta VIII e a Força é a XI. No Rider-Waite, é o contrário: a Força é a VIII e a Justiça é a XI.
Waite foi o primeiro a imprimir a troca, que já existia nos ensinamentos da Golden Dawn, a ordem esotérica da qual ele fazia parte. No livro que acompanha o baralho, escreve apenas que a carta foi trocada com a da Justiça "por razões que me satisfazem". O motivo aparece nas correspondências astrológicas da ordem, em que a Força se liga a Leão e a Justiça a Libra. Então, se você usa dois baralhos de tradições diferentes e os números não batem, não é defeito de impressão.
E os naipes?
Os Arcanos Menores também mudam de nome conforme a tradição. No Marselha, os naipes em francês são Bâtons, Épées, Coupes e Deniers, que em português costumam virar Paus, Espadas, Copas e Ouros, os mesmos nomes do baralho comum. No Rider-Waite, são Wands, Swords, Cups e Pentacles, e as traduções variam entre Paus ou Bastões, e Pentáculos ou Ouros.
As figuras da corte seguem a mesma lógica. O Valet francês pode aparecer como Valete ou como Pajem, que vem do Page inglês. Cavaleiro, Rainha e Rei são mais estáveis.
Como não se perder
A dica mais simples é olhar pra imagem e pro número, não só pro nome. O número VI no alto resolve a dúvida, seja qual for o título escrito embaixo. O mesmo vale pro XII: seu baralho pode dizer O Pendurado, e a figura continua sendo O Enforcado. O que muda de uma tradição pra outra, às vezes, é o desenho e a ênfase simbólica, e isso sim vale a pena comparar com calma.
Também ajuda saber de qual tradição vem o seu baralho. Se ele segue o Marselha, é natural encontrar A Papisa e O Papa. Se segue o Rider-Waite, é natural encontrar A Sacerdotisa e O Hierofante. Muitos baralhos brasileiros misturam as duas coisas, e está tudo bem.
No fundo, essa variedade de nomes é um retrato da própria história do tarot: um jogo italiano que ganhou títulos em francês, foi redesenhado em inglês e chegou ao Brasil pelas mãos de tradutores, editoras e estudiosos com escolhas diferentes. Cada nome conta um pedaço dessa viagem.
