Poucas cartas do tarot despertam tanta curiosidade quanto a do número II. Em alguns baralhos, ela se chama A Papisa e aparece com uma tiara papal na cabeça. Em outros, é A Sacerdotisa, ou Alta Sacerdotisa, sentada num templo cheio de símbolos. A pergunta sobre a Papisa no tarot aparece cedo pra quem estuda: afinal, quem é essa mulher? Uma papa? Uma sacerdotisa pagã? Uma freira?
A resposta honesta é que ninguém sabe ao certo o que os primeiros pintores tinham em mente. Mas a história das interpretações é fascinante, e passa por uma lenda medieval, por uma seita religiosa condenada pela Inquisição e por ocultistas que redesenharam a carta no começo do século XX.
Uma mulher com tiara de papa
Ela está lá desde o começo, quando o tarot ainda era só um jogo de cartas, em meados do século XV, nas cortes do norte da Itália. Entre os trunfos que sobreviveram daquela época, como os dos baralhos pintados à mão pra família Visconti, de Milão, já aparece uma figura feminina em trajes religiosos, que os italianos chamavam de La Papessa. Há também uma Papisa sem título numa folha de cartas impressas não recortadas, do fim do século XV ou início do XVI, guardada hoje na National Gallery of Art, em Washington.
No padrão que ganhou o nome de Tarot de Marselha, a carta passa a ter título escrito: La Papesse. A figura usa a tiara papal, a coroa tripla, e em algumas versões modernas desse padrão aparecem também as chaves, outro símbolo tradicional do papado. Não há muita dúvida de que a imagem conversa com a ideia de uma mulher no mais alto cargo da Igreja. O que se discute é de onde viria essa ideia.
A figura, aliás, incomodava. Segundo a história do Tarot de Marselha, uma variante surgida na Alsácia no início do século XVIII, depois conhecida como Tarot de Besançon, substituiu a Papisa e o Papa por Juno e Júpiter, os deuses romanos. Esse baralho foi popular entre católicos que viviam em regiões vizinhas a comunidades protestantes. Até hoje, em baralhos suíços usados em jogos tradicionais, a carta II aparece como Junon.
A lenda da Papisa Joana
A explicação mais conhecida liga a carta à lenda da Papisa Joana. A história conta que uma mulher, disfarçada de homem, teria chegado a ser eleita papa, e só teria sido descoberta quando deu à luz durante uma procissão.
A lenda aparece por escrito no século XIII. Uma das primeiras versões é a do cronista dominicano Jean de Mailly, no início daquele século, que nem dá nome à papisa e situa os fatos no ano de 1099. Mais tarde, ainda no século XIII, uma versão ligada à crônica de Martinho de Opava acrescenta detalhes, dá à personagem um nome masculino de fachada e muda a época pro século IX. A partir daí, a história se espalhou pela Europa e foi amplamente aceita durante séculos.
Hoje, a maioria dos estudiosos considera a Papisa Joana uma figura fictícia. Mas a força da lenda é inegável, e é plausível que o público dos séculos XV a XVIII olhasse pra carta e pensasse nela. Em países protestantes depois da Reforma, inclusive, a imagem da Papisa Joana foi usada em cartas de tarot, o que reforça essa associação.
A hipótese de Manfreda
Existe uma segunda hipótese, mais específica e mais surpreendente, que diz respeito à Papisa dos baralhos Visconti-Sforza. Ela foi proposta pela bibliotecária e historiadora Gertrude Moakley, num estudo de 1966 sobre o baralho Visconti-Sforza e seu pintor provável, Bonifacio Bembo.
Segundo Moakley, a figura seria a irmã Manfreda, uma religiosa da ordem das Umiliate e parente da família Visconti. Manfreda foi eleita "papisa" por uma seita chamada guglielmita, formada por seguidores de Guglielma da Boêmia, morta em Milão em 1281. Os seguidores mais fervorosos acreditavam que Guglielma era a encarnação do Espírito Santo e que, no ano de 1300, o papado masculino daria lugar a uma linhagem de papisas. A Inquisição reprimiu o grupo, e Manfreda foi queimada em 1300. Mais tarde, a Inquisição também agiu contra Matteo Visconti por ligações com a seita.
A ideia tem um apelo evidente: explicaria por que uma família poderosa de Milão teria uma papisa em suas cartas. O historiador Michael Dummett, uma das maiores referências no estudo do tarot como jogo, apoiou essa identificação. Ainda assim, é bom lembrar que se trata de uma hipótese interpretativa. Não existe documento da época dizendo "esta carta representa Manfreda".
Como a Papisa virou Sacerdotisa
Foi no esoterismo inglês que a carta mudou de identidade. A Golden Dawn, ordem fundada em Londres em 1888, ligava cada arcano a uma letra hebraica e a um astro. No Book T, um dos manuscritos usados no ensino interno, o arcano II vira a "Sacerdotisa da Estrela de Prata", associada à Lua.
O escritor Arthur Edward Waite e a artista Pamela Colman Smith, ambos membros da ordem, lançaram em 1909 o baralho que ficaria conhecido como Rider-Waite. Ali, a Papisa dá lugar à High Priestess, a Alta Sacerdotisa. A tiara papal sai de cena. No lugar dela, Waite descreve um diadema com chifres e um globo no meio, e acrescenta elementos tirados do simbolismo do Templo de Salomão e da tradição judaica.
Waite conhecia o nome antigo e escreveu sobre ele. No seu livro The Pictorial Key to the Tarot, ele lista a carta como "A Alta Sacerdotisa, a Papisa Joana, ou Pontífice Feminino", e comenta que os primeiros comentadores tentaram chamá-la de "a Mãe" ou "a Esposa do Papa", o que, segundo ele, contraria o simbolismo. Pra Waite, a figura representava algo mais amplo: a tradição secreta, uma espécie de Igreja oculta, e a Shekiná, a presença divina na tradição cabalística. Num artigo de 1926, conhecido por citações em resumos da história da carta, ele teria descartado a ligação com a Papisa Joana e especulado sobre uma relação com o antigo culto de Astarte.
Com a enorme difusão do Rider-Waite e dos baralhos inspirados nele, o nome Sacerdotisa se tornou o mais comum em boa parte do mundo, inclusive no Brasil. Quem estuda pelo Tarot de Marselha, por outro lado, continua encontrando a Papisa.
Por que isso importa pra quem lê hoje
Saber essa história não muda o que a carta pode significar numa leitura, mas amplia o horizonte. Quando você olha pra Papisa, está vendo uma imagem que já foi lida como escândalo, como lenda popular, como possível retrato de uma mulher executada por heresia e como símbolo de sabedoria esotérica. Cada época projetou nela alguma coisa sobre o lugar das mulheres no sagrado e no poder.
Talvez seja por isso que a figura continue tão magnética. Ela é, ao mesmo tempo, uma autoridade religiosa que não deveria existir, segundo as regras da época, e uma guardiã de conhecimentos que não se entregam de qualquer jeito. Papisa ou Sacerdotisa, a mulher do arcano II carrega séculos de perguntas que ninguém respondeu por completo. E, talvez, seja justamente esse o seu encanto.
