Quem já abriu um livro moderno de tarot provavelmente notou que cada Arcano Maior vem com um signo, um planeta ou um elemento do lado. O Imperador aparece ligado a Áries, A Sacerdotisa à Lua, A Morte a Escorpião. Como muita gente aprende essas associações junto com as próprias cartas, é fácil imaginar que elas estiveram ali desde sempre, como se tarot e astrologia tivessem nascido juntos.
Não foi assim, e a história verdadeira é bem mais curiosa. Entender de onde vieram essas ligações ajuda a usá-las com mais liberdade e menos dogma.
O tarot nasceu como jogo, não como mapa do céu
Os primeiros baralhos de tarot surgiram na Itália do século XV como diversão de corte, um jogo de cartas com trunfos ilustrados. E ficaram nisso por muito tempo. Só no fim do século XVIII, na França, a leitura das cartas pra adivinhação começa a se firmar. As correspondências astrológicas que hoje parecem tão óbvias vieram depois ainda.
Isso não significa que as figuras antigas não tivessem nada a ver com o céu. Basta lembrar que três trunfos são A Estrela, A Lua e O Sol. O que não existia era um sistema amarrando cada carta a um signo ou planeta específico. Esse sistema foi montado mais tarde.
A Golden Dawn e o grande encaixe
As correspondências usadas pela maioria dos baralhos modernos devem quase tudo a uma sociedade esotérica inglesa fundada em 1888, a Hermetic Order of the Golden Dawn, conhecida simplesmente como Golden Dawn. Seus membros queriam algo ambicioso: juntar num sistema só a Cabala, a astrologia, a alquimia, a magia cerimonial e o tarot.
A ponte foi o alfabeto hebraico. Ele tem 22 letras, o mesmo número de Arcanos Maiores. Num texto antigo da mística judaica, o Sefer Yetzirah, essas letras se dividem em três grupos: três letras "mães", sete "duplas" e doze "simples". A Golden Dawn aproveitou essa divisão. As três mães ficaram com os três elementos (ar, água e fogo). As sete duplas receberam os sete planetas conhecidos na Antiguidade, contando o Sol e a Lua. As doze simples ganharam os doze signos do zodíaco.
Faltava só ligar cada letra a uma carta. O resultado está num documento interno da ordem, conhecido como Book T, e ficou mais ou menos assim:
| Carta | Correspondência na Golden Dawn | |---|---| | O Louco | Ar | | O Mago | Mercúrio | | A Sacerdotisa | Lua | | A Imperatriz | Vênus | | O Imperador | Áries | | O Hierofante | Touro | | Os Enamorados | Gêmeos | | O Carro | Câncer | | A Força | Leão | | O Eremita | Virgem | | A Roda da Fortuna | Júpiter | | A Justiça | Libra | | O Enforcado | Água | | A Morte | Escorpião | | A Temperança | Sagitário | | O Diabo | Capricórnio | | A Torre | Marte | | A Estrela | Aquário | | A Lua | Peixes | | O Sol | Sol | | O Julgamento | Fogo (e Espírito) | | O Mundo | Saturno (e Terra) |
Olhe a coluna da direita: conforme as cartas avançam, os signos seguem a ordem do zodíaco, de Áries a Peixes. Só que, pra essa sequência fechar, a numeração tradicional precisava de um remendo. Quem pega um Tarot de Marselha encontra A Justiça no VIII e A Força no XI, e com esses números Leão e Libra ficariam fora de lugar na fila dos signos. Arthur Edward Waite tinha sido membro da Golden Dawn, e quando lançou seu baralho em 1909, feito em parceria com Pamela Colman Smith, levou para o baralho a troca que a ordem já fazia. Desde então A Força ocupa a VIII, com Leão, e A Justiça fica na XI, com Libra.
E os Arcanos Menores?
A Golden Dawn também mexeu nos Menores. As 36 cartas numeradas de 2 a 10 dos quatro naipes foram associadas aos 36 decanatos, as fatias de 10 graus em que se divide o círculo do zodíaco. Cada signo tem três decanatos, e cada carta menor ficou com um deles, com um planeta regente.
Os ases ficaram fora dessa conta. No Book T, cada ás é a raiz do seu elemento: fogo para Paus, água para Copas, ar para Espadas e terra para Ouros. Já as cartas da corte foram distribuídas por faixas do zodíaco, num esquema mais complicado que muda um pouco de autor pra autor.
Por isso alguns baralhos trazem pequenos símbolos astrológicos nos cantos das cartas menores. São herança direta desse sistema.
Urano, Netuno e Plutão: a camada moderna
A Golden Dawn montou seu sistema com os sete astros da astrologia tradicional. Urano já tinha sido descoberto em 1781 e Netuno em 1846, mas nenhum dos dois entrou no esquema. Plutão só seria encontrado em 1930.
Ao longo do século XX, vários autores passaram a encaixar esses planetas nas três cartas que, na Golden Dawn, tinham ficado com elementos: Urano para O Louco, Netuno para O Enforcado e Plutão para O Julgamento. Não há consenso absoluto sobre isso, mas é o esquema moderno mais comum.
Então, se um livro liga O Louco ao ar e outro a Urano, nenhum dos dois está necessariamente errado. São duas camadas da mesma tradição, a original da Golden Dawn e o acréscimo moderno. Hoje, boa parte dos livros e baralhos de linha inglesa traz a versão com os planetas modernos para essas três cartas.
Outros sistemas também existem
O sistema da Golden Dawn não é o único. Antes dela, em meados do século XIX, o ocultista francês Éliphas Lévi já tinha associado os trunfos às letras hebraicas, só que começando pelo Mago na primeira letra e pondo O Louco perto do fim, entre O Julgamento e O Mundo. A Golden Dawn colocou O Louco na frente, com o número zero, e com isso as letras escorregaram uma carta pra baixo, levando junto signos e planetas. Daí que livros da tradição francesa às vezes tragam correspondências diferentes das que aparecem nos baralhos de origem inglesa. Depois, Aleister Crowley, que também passou pela ordem, fez ajustes próprios no seu baralho. E muitos tarólogos que trabalham com o Tarot de Marselha preferem deixar a astrologia de lado e ler as cartas só pelas imagens.
Nenhum desses caminhos é o "verdadeiro". São escolhas simbólicas feitas por pessoas diferentes, em épocas diferentes. O da Golden Dawn se espalhou tanto por ser muito coerente por dentro e por ter sido adotado pelo baralho mais popular do século XX.
Como usar essas ligações na prática
Pra quem gosta de astrologia, as correspondências podem enriquecer bastante uma leitura. Uma carta ligada a um signo pode trazer à mente traços daquele signo que ajudam a interpretar a mensagem, e uma carta ligada a um planeta pode puxar os temas que a astrologia associa a ele. Há também quem goste de ver quais cartas conversam com o próprio mapa astral, como forma de estudo pessoal.
Dá pra ler tarot muito bem sem saber nada de astrologia, porém. Imagens, números e a relação entre as cartas já oferecem material de sobra. A astrologia entra como uma lente extra, e ninguém é obrigado a usá-la.
Vale ter em mente que essas ligações formam um sistema simbólico construído por gente, e não uma lei encontrada na natureza. Sabendo disso, você fica livre pra aproveitar o que faz sentido e deixar de lado o que não combina com o seu jeito de ler.
