Quem aprende tarot hoje, quase sempre com baralhos inspirados no Rider-Waite, conhece o arcano I como uma figura solene: um jovem de túnica branca e manto vermelho, varinha erguida, os símbolos dos quatro naipes sobre a mesa. É fácil imaginar que ele sempre foi assim. Mas, na história do tarot, O Mago tem um passado bem mais curioso. Durante séculos, o personagem do número I não era um sábio iniciado. Era alguém que ganhava a vida na rua, com truques e conversa.
Acompanhar essa transformação é uma boa maneira de entender algo maior: o tarot não caiu pronto do céu. Ele foi sendo desenhado, rebatizado e reinterpretado por gente de épocas muito diferentes, cada uma com suas perguntas.
Um baralho que nasceu pra jogar
Antes de falar do Mago, vale lembrar de onde vêm as cartas. Pelo que a pesquisa histórica conseguiu reconstituir, as cartas surgiram no norte da Itália, lá pela metade do século XV, e serviam pra jogar. Sinais de que alguém as usasse pra adivinhar, numa escala que chame atenção, só aparecem no fim do século XVIII. Ou seja: por uns trezentos anos, o arcano I foi, antes de tudo, uma carta de jogo.
Nos jogos de tarot, aliás, essa carta tinha um papel próprio. Em muitos deles, ela é o trunfo mais baixo, mas vale bastante na contagem de pontos, e por isso os jogadores disputam o momento de usá-la. Nada de mistério esotérico: estratégia de mesa.
O Bagatto dos Visconti-Sforza
Os exemplares mais antigos que chegaram até nós são cartas pintadas à mão pra famílias ricas da Itália renascentista. Os chamados baralhos Visconti-Sforza, feitos em meados do século XV pros senhores de Milão, sobreviveram só em partes, espalhados por museus e coleções. Boa parte dessas cartas costuma ser creditada ao pintor Bonifacio Bembo.
Na tradição italiana, o personagem do número I se chama Il Bagatto (ou Bagatello). Na versão dos Visconti-Sforza, ele aparece diante de uma mesa com objetos, e há estudiosos que veem ali o velho jogo de copos e bolinhas, em que o artista esconde e faz reaparecer uma bolinha diante do público. A figura é de alguém que manipula coisas pequenas com destreza, não de um sacerdote.
O Bateleur de Marselha
Nos séculos seguintes, o tarot se espalhou pela França, e um padrão de desenho caiu no gosto do público: o que acabou ficando conhecido como Tarot de Marselha. O nome, curiosamente, é recente. Ele foi criado em 1856 pelo historiador francês de cartas Romain Merlin e depois popularizado por autores esotéricos. As cartas desse padrão eram produzidas em várias cidades francesas, e as mais antigas conhecidas são de Philippe Vachier, de Marselha, datadas de 1639. Outros nomes importantes dessa tradição são Jean Noblet, por volta de 1650, Jean Dodal, no início do século XVIII, e Nicolas Conver, por volta de 1760.
É no padrão de Marselha que o arcano I ganha o nome que muitos leitores de hoje conhecem: Le Bateleur. A palavra francesa designa o artista de rua, o saltimbanco, o prestidigitador de feira. O historiador Michael Dummett, um dos maiores estudiosos do tarot como jogo, verte o nome pro inglês como "The Mountebank", termo que evoca justamente o vendedor ambulante que atrai o público com truques e lábia.
A imagem acompanha o nome. O Bateleur monta uma mesa provisória ao ar livre e exibe sobre ela objetos que lembram os naipes: copas, moedas e facas no lugar das espadas. Na mão, segura um bastão. É uma cena de praça, de gente passando, de alguém tentando prender a atenção de quem para pra olhar.
Quando o artista de rua virou mago
A virada começa no fim do século XVIII, quando o francês Antoine Court de Gébelin publica, em 1781, suas especulações sobre uma suposta origem egípcia do tarot. A tese não tem base histórica, mas chama a atenção de ocultistas pra essas cartas, e a partir daí o baralho passa a ser lido como um livro de símbolos secretos.
Ao longo do século XIX, autores esotéricos franceses vão reinterpretando o arcano I. Um passo importante é o baralho do suíço Oswald Wirth, de 1889, que ajuda a transformar o Bateleur de artista de feira em mago. A aba curva do chapéu que aparece nas cartas de Marselha passa a ser associada ao símbolo matemático do infinito, e outros elementos são acrescentados ou relidos com intenção simbólica.
Do outro lado do Canal da Mancha, a Golden Dawn (Ordem Hermética da Aurora Dourada), criada em Londres em 1888, montava sua própria rede de correspondências entre cartas, letras e astros. O Book T, um dos textos que a ordem usava pra ensinar, dá ao arcano I o título de "O Mago do Poder" e o associa ao planeta Mercúrio. O trapaceiro de feira entrava definitivamente no mundo da alta magia.
O Mago de Waite e Pamela Colman Smith
Em 1909, a editora londrina William Rider & Son lança o baralho que viria a ser o mais influente do século XX. A ideia foi do escritor e místico Arthur Edward Waite; os desenhos, da artista Pamela Colman Smith. Os dois tinham ligação com a Golden Dawn. Por isso o baralho aparece com vários nomes: Rider-Waite, Rider-Waite-Smith ou simplesmente Rider.
Waite descreve a carta com cuidado em The Pictorial Key to the Tarot, o livro lançado junto com o baralho. Ele fala de uma figura jovem com a roupa de um mago, de um sinal sobre a cabeça "como uma corda sem fim, formando o número 8 na horizontal", de um cinto em forma de serpente que parece devorar a própria cauda, de uma varinha erguida numa mão enquanto a outra aponta pra terra, e dos símbolos dos quatro naipes sobre a mesa, que, nas palavras dele, estão "como fichas diante do adepto, e ele os usa como quiser". Aos pés, rosas e lírios.
O mais saboroso é que Waite conhecia muito bem o passado da figura e fazia questão de se distanciar dele. Na mesma obra, ele lembra que o arcano I era visto como "o lançador de dados e saltimbanco, no mundo da trapaça vulgar", e chama essa leitura de interpretação de camelô, de vendedor ambulante. Pra ele, o sentido verdadeiro estava em outro plano. A mesa de feira virou altar, e as fichas do jogo viraram os elementos da natureza.
O que essa história nos ensina
É tentador escolher um lado: dizer que o Mago "de verdade" é o de Marselha, mais antigo, ou que o de Waite é o "correto", mais elaborado. Mas talvez a riqueza da carta esteja justamente nessa sobreposição. A figura que conhecemos hoje carrega as duas camadas ao mesmo tempo: o brilho de quem domina as ferramentas e a sombra de quem pode usar a destreza pra iludir.
Saber que o mago já foi um artista de rua não diminui a carta. Pelo contrário, lembra que habilidade é algo que se exerce no meio das pessoas, na praça, diante de um público que pode aplaudir ou desconfiar. E lembra, também, que cada época olhou pra essa imagem e viu nela o que precisava ver.
Da próxima vez que ela aparecer na sua frente, tente imaginar a mesa improvisada no meio da feira, o barulho das pessoas passando, o artista que tenta prender seu olhar. Depois olhe de novo pro jovem sereno de Pamela Colman Smith. São a mesma figura, separadas por alguns séculos de gente fazendo perguntas diferentes.
