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    O Significado das Cores no Tarot

    Potes de pigmento amarelo, branco, azul e vermelho ao lado de uma paleta de porcelana e pincéis sobre uma mesa de madeira

    A cor de uma carta conta uma parte da história, mas nem sempre foi escolhida por simbolismo. Entender de onde vêm as tintas do Marselha e do Rider-Waite muda o jeito de olhar a mesa.

    Equipe Expansão Tarot08 de abril de 20266 min de leituraAtualizado em 27 de setembro de 2026

    Antes de qualquer significado aprendido, a cor chega primeiro. Você vira a carta e, numa fração de segundo, já sentiu se ela é quente ou fria, se tem luz ou pesa. Só depois muita gente repara na figura e no nome. É por isso que vale a pena estudar as cores do tarot: elas falam com você antes que a cabeça comece a interpretar.

    Só que tem um porém logo de saída. As cores de um baralho nunca formaram um código universal. Mudam com a época e com a técnica de impressão, dependem do artista e, às vezes, da edição que está na sua mão. Saber disso não estraga nada. Dá até mais liberdade pra ler a cor como linguagem, sem tabela decorada.

    Quando cada tinta custava trabalho

    Os baralhos de tarot mais antigos que conhecemos, feitos na Itália do século XV para famílias nobres como os Visconti e os Sforza, eram pintados à mão, carta por carta, e alguns tinham fundos dourados. Eram objetos de luxo, e a cor ali era também uma demonstração de riqueza.

    Quando o tarot se popularizou e passou a ser fabricado em quantidade, a história mudou. Os baralhos do padrão hoje conhecido como Tarot de Marselha eram impressos a partir de matrizes de madeira, que davam só o traço preto. A cor vinha depois, à mão ou com estêncil: uma folha recortada, colocada sobre a folha impressa, por onde o pintor passava o pincel. Para cada cor, um estêncil diferente. Cada tinta a mais significava outra etapa e mais dinheiro gasto.

    O resultado é uma paleta curta. Philippe Camoin, descendente da família que imprime o Marselha desde o século XIX, conta que no tempo do estêncil dava pra trabalhar com cinco, seis ou sete cores. E que, por volta de 1880, a chegada das máquinas de impressão em quatro cores reduziu ainda mais esse leque, sobrando basicamente vermelho, azul, amarelo, preto e um pouco de verde. Segundo ele, muitos baralhos do século XX copiaram essas cores industriais, e houve autores que construíram teorias simbólicas inteiras em cima delas.

    Convém lembrar que quem conta isso vende a própria versão restaurada do baralho. Ainda assim, a ideia central, a de que a técnica limitava a paleta, bate com o que se sabe sobre cartas coloridas com estêncil. E fica uma lição pra quem estuda: nem toda cor está ali pelo que significa. Às vezes era só a tinta que havia naquela etapa.

    O Rider-Waite e a cor como clima

    Em 1909, o baralho desenhado por Pamela Colman Smith sob orientação de Arthur Edward Waite trouxe outra relação com a cor. A impressão continuava tendo limites, mas agora cada carta trazia uma cena inteira, com paisagem e céu. A cor passa a trabalhar como a luz num filme, criando clima.

    Repare, sem precisar olhar carta por carta, como o baralho alterna alguns tipos de fundo. Os fundos amarelos lisos dão sensação de claridade e exposição, como se a cena acontecesse em pleno dia. Céus cinzentos pesam e deixam o ambiente mais contido. O azul ora parece céu aberto, ora parece noite. E o preto costuma fechar o espaço em volta das figuras. Se você colocar o baralho inteiro sobre a mesa e agrupar as cartas só pelo fundo, vai notar famílias de clima que atravessam os naipes. Leva uns dez minutos e ensina bastante. Essa passagem do Marselha ao Rider-Waite mudou bem mais do que a cor, inclusive os nomes de várias cartas.

    A mesma carta, cores diferentes

    Pouca gente se dá conta, mas o Rider-Waite que está na sua gaveta pode não ter as mesmas cores do Rider-Waite da sua amiga. O baralho foi reeditado muitas vezes ao longo do século XX, por editoras diferentes, e as cores variam de uma impressão pra outra. Existe até uma versão, o Universal Waite, em que os desenhos originais de Pamela Colman Smith foram recoloridos pela artista Mary Hanson-Roberts, com tons mais suaves e degradês no lugar das áreas chapadas.

    Traço e composição continuam iguais, e mesmo assim a sensação muda. Um céu que numa edição parece amarelo-ouro, em outra pode parecer quase creme. Um vermelho vivo pode virar vinho. Por isso, quando alguém disser que tal carta "é" de tal cor e por isso significa tal coisa, pergunte: em qual edição?

    Essa variação também acontece com o Marselha, que tem dezenas de versões históricas e restaurações modernas. A história do Mago, por exemplo, mostra bem como uma mesma figura foi redesenhada e recolorida ao longo dos séculos.

    Cor como linguagem, e não como dicionário

    As cores significam, sim, e algumas associações são muito difundidas na cultura ocidental. O vermelho costuma lembrar calor e paixão; o azul, distância e calma. Amarelo puxa pra luz e visibilidade, branco pra limpeza ou começo, preto pra noite e fim. O dourado sugere valor, algo que merece ser guardado. Essas associações aparecem em muita coisa além do tarot, e é natural que também apareçam na leitura.

    O cuidado é não transformar essas associações em regra. Cor também é cultura e memória pessoal. No Brasil, muita gente veste branco na virada do ano pensando em paz, enquanto em outros lugares o branco está ligado ao luto. Para uma pessoa, o azul lembra o mar da infância; para outra, um hospital. Quando uma cor chamar sua atenção numa carta, experimente trocar "o que essa cor significa?" por "o que ela desperta em mim agora?". A segunda pergunta costuma render mais.

    Como usar as cores numa leitura

    Numa tiragem, a cor serve mais como pista do que como resposta. Dá pra observar de alguns jeitos.

    Comece pela tiragem inteira, antes de olhar cada carta de perto. Que tom domina a mesa, quente ou frio? Tem muito claro, muito escuro? Essa primeira impressão às vezes diz mais sobre o clima da situação do que qualquer significado isolado.

    Repare nas repetições e nas ausências. Quando duas ou três cartas vizinhas compartilham uma cor forte, é como se a mesa sublinhasse um tema. E quando uma cor que você esperava simplesmente não aparece, isso também pode render uma boa pergunta.

    Observe o contraste. Uma carta muito clara ao lado de outra muito escura cria tensão visual, e essa tensão pode espelhar uma tensão na própria pergunta.

    Por fim, anote. Se você mantém um registro das suas leituras, inclua uma linha sobre as cores que mais chamaram sua atenção. Com o tempo, você descobre quais delas falam mais alto pra você, e esse vocabulário pessoal vale mais do que qualquer lista pronta.

    Cada baralho tem sua paleta

    O que ficou dito aqui vale sobretudo para as famílias do Marselha e do Rider-Waite. Outros baralhos, como o Thoth ou os oráculos contemporâneos, usam paletas com lógicas próprias, às vezes muito elaboradas, às vezes puramente estéticas. Quando você pegar um baralho novo, dedique um tempo só a olhar as cores, sem ler nada. Repare onde o artista pôs a luz e onde deixou o escuro. É assim que se aprende a língua visual daquele baralho, e não a de um tarot genérico que só existe nos manuais.