Quem olha os 22 Arcanos Maiores enfileirados pela primeira vez costuma sentir que há ali uma história. Figuras que parecem ensinar, figuras que parecem testar, cenas de queda, cenas de luz, e no fim uma imagem de conclusão. A Jornada do Louco é o nome dado à ideia de que essas cartas formam, juntas, uma narrativa: a viagem de um único personagem, o Louco, passando por todas as outras.
É uma das chaves de leitura mais usadas do tarot moderno, e das mais bonitas. Antes de sair usando, vale conhecer a origem dela e até onde ela vai.
Uma ideia mais nova do que as cartas
Os trunfos do tarot existem desde o século XV, mas a expressão "Jornada do Louco" é do século XX. Quem a batizou foi a americana Eden Gray, autora de livros de tarot que se tornaram muito populares nos Estados Unidos. Em 1960, ela já sugeria que o Louco precisava passar pelas experiências das outras 21 cartas até chegar à última. Em 1970, no livro A Complete Guide to the Tarot, deu à ideia um título próprio, "The Fool's Journey", no epílogo da obra. A pesquisadora Mary K. Greer observa que Gray provavelmente se inspirou em Arthur Edward Waite, que já falava de um "progresso da alma" através das cartas.
Não significa que ninguém antes tivesse visto uma sequência nos trunfos. Há pesquisadores que apontam semelhanças entre as figuras do tarot e as grandes narrativas de viagem espiritual que circulavam entre os italianos daquela época, como a Divina Comédia, de Dante, e os Triunfos, de Petrarca. Mas essa ligação é debatida e não tem prova direta. O que se pode afirmar é que a leitura dos Arcanos Maiores como a trajetória de um personagem, do jeito como se conhece hoje, ganhou forma e nome com Gray.
Um detalhe curioso reforça como essa leitura é uma construção posterior. No Tarot de Marselha, o Louco não tem número. No jogo de cartas, ele ficava à parte dos outros 21 trunfos, porque normalmente não vencia as rodadas. Com o tempo, passou a ser numerado como zero e, na tradição esotérica, colocado no início da sequência. Nomes e números mudaram bastante ao longo dos séculos, e os nomes das cartas variam entre baralhos até hoje.
Três fileiras de sete
Uma das formas mais conhecidas de organizar a Jornada foi proposta pela escritora Rachel Pollack no livro Seventy-Eight Degrees of Wisdom, publicado em 1980. Ela conta que era comum dividir os Arcanos Maiores em duas metades, mas que, na sua experiência, as cartas se dividiam de forma ainda mais natural em três partes.
A proposta é simples. Separe o Louco das demais. Com as 21 cartas numeradas que sobram, monte três fileiras de sete: a primeira do I ao VII, a segunda do VIII ao XIV, a terceira do XV ao XXI. Pollack justifica colocar o Louco à parte dizendo que isso permite perceber que ele pertence a qualquer lugar da sequência.
Vale fazer isso fisicamente com o seu baralho. Coloque O Louco acima ou ao lado das três fileiras, como quem observa o caminho antes de entrar nele. Depois, olhe a mesa com calma.
As etapas da viagem
Sem entrar no significado de cada carta, dá pra perceber que cada fileira tem um clima próprio.
A primeira fileira é povoada por figuras que representam papéis e forças do mundo à nossa volta. Há personagens que ensinam, que governam, que orientam, que escolhem. É como se o viajante estivesse aprendendo as regras do lugar onde nasceu: quem manda e o que esperam dele. Pollack associa essa fileira às preocupações externas, à vida em sociedade.
A segunda fileira muda de direção. As cenas ficam mais solitárias, o tempo aparece como tema, e surgem imagens em que o personagem não controla o que acontece. É a parte da viagem em que o olhar se volta para dentro. Muita gente sente que essa fileira fala do momento em que as respostas prontas da primeira parte deixam de servir.
A terceira fileira leva o viajante para além de si mesmo. Não por acaso, é nela que os astros entram em cena: estrela, lua e sol dão nome a três cartas seguidas. As imagens ficam maiores do que qualquer figura humana, e a sequência termina numa carta de conclusão, O Mundo. Pollack reconhece que essa é a fileira mais difícil de compreender para a mentalidade moderna, justamente por falar de forças que ultrapassam o indivíduo.
Ler também as colunas
Quando as três fileiras estão montadas, outra leitura aparece: a das colunas. A primeira carta de cada fileira fica uma embaixo da outra, e o mesmo acontece com a segunda, a terceira e assim por diante até a sétima.
Pollack chama atenção para essas correspondências verticais, observando por exemplo semelhanças de postura entre as figuras que abrem cada fileira. A leitura vertical é um ótimo exercício pra quem quer estudar os Arcanos Maiores de um jeito menos decorado. No lugar de "o que significa esta carta?", a pergunta passa a ser "o que esta carta tem em comum com as que estão acima e abaixo dela?". As respostas costumam surpreender.
O Louco como viajante
Na Jornada, o Louco não é só a primeira carta. Ele é o protagonista, aquele que atravessa todas as outras. Por isso muita gente prefere vê-lo mais como ponto de vista do que como etapa: o de quem está vivendo a história.
Daí sai uma consequência bonita: as outras 21 cartas viram situações vividas por uma mesma pessoa, mais do que personagens diferentes. Nessa leitura, você é o viajante, e ao longo da vida atravessa muitas delas, às vezes mais de uma vez, às vezes fora de ordem.
Como usar essa chave na prática
Quando um Arcano Maior aparece numa tiragem, vale lembrar em que fileira da Jornada ele está. O sentido da carta continua o mesmo, mas ganha uma camada: o assunto parece estar mais no plano das regras e papéis, no plano de uma virada interna ou no plano de algo maior do que você?
Outro uso é como exercício de autoconhecimento. Monte as três fileiras e pergunte: qual dessas cartas representa onde estou agora? Qual representa de onde venho? Qual representa para onde sinto que vou? Não há resposta certa. O valor está no que a escolha revela.
Um mapa, não um trilho
A Jornada do Louco é uma chave de interpretação, não uma camisa de força. A vida não segue uma ordem de 0 a 21, e ninguém "termina" a jornada numa idade certa. É comum estar em várias etapas ao mesmo tempo, aprendendo algo novo no trabalho enquanto se atravessa uma perda na família.
Também vale lembrar que cada Arcano Maior tem leituras isoladas perfeitamente válidas. A Jornada é uma forma de olhar o conjunto, e não a única. Usada com essa leveza, ela ajuda a perceber que o tarot, além de um conjunto de símbolos, pode ser lido como uma história, e que essa história também é um pouco a sua.
