Você embaralha com uma pergunta tranquila na cabeça, vira as cartas e, do nada, o rosto esquenta. Um nome aparece. Uma cena antiga volta inteira, com tom de voz e tudo. Você percebe que está com raiva, e às vezes nem sabe bem de quem. Ninguém costuma avisar, mas tarot e raiva às vezes sentam juntos à mesa.
Acontece com mais gente do que parece. Ler tarot é parar e prestar atenção no que se passa por dentro, e quando a gente para, o que estava guardado sobe. Pode ser tristeza, pode ser saudade. Muitas vezes é raiva mesmo. E boa parte das pessoas, principalmente quem tem uma relação espiritual com as cartas, fica sem saber o que fazer com ela.
Raiva não é sinal de que você está "vibrando baixo"
Em alguns círculos espirituais circula a ideia de que sentir raiva é defeito, atraso, energia pesada que precisa ser limpa o quanto antes. Quem acredita nisso costuma receber a raiva que aparece numa leitura com vergonha, pensando "eu nem devia estar sentindo isso".
Na maior parte das vezes, porém, a raiva traz um aviso. Ela aparece quando alguém passou do seu limite, quando você foi tratado com injustiça, quando algo que importava foi deixado de lado. Engolir o aviso não apaga nada. Ele só muda de endereço e vai parar no cansaço, na impaciência com quem não tem culpa nenhuma, na dificuldade de confiar.
Por isso, se a leitura trouxe raiva à tona, comece sem brigar com ela. Ninguém precisa gostar do que sente. Basta reconhecer, mesmo que baixinho: "estou com raiva". Parece pouca coisa, mas dar nome já altera a relação com o sentimento.
Pare a leitura, se precisar
Nenhuma regra obriga você a terminar uma tiragem só porque começou. Se o que veio foi forte, recolha as cartas e volte outro dia. Com o coração disparado, a interpretação sai torta, e qualquer carta vira prova de que alguém te fez mal, ou de que a culpa de tudo é sua.
Antes de pensar, mexa o corpo. Levante da cadeira, lave o rosto, vá até a janela, dê umas voltas pela casa. Raiva é uma emoção muito física, e às vezes ela precisa sair em movimento antes de conseguir virar pensamento. Quando a respiração assentar, aí sim dá pra voltar à mesa, ou ao caderno.
Pergunte o que a raiva está protegendo
Mais calmo, você pode usar as cartas de outro jeito. Em vez de perguntar sobre a pessoa que provocou tudo ("o que ela sente?", "ela vai pagar pelo que fez?"), vire a pergunta pro seu lado.
Algumas perguntas costumam destravar: "o que eu precisava naquela situação e não recebi?", "que limite meu foi atropelado?", "o que eu tenho medo de perder se admitir essa raiva?". Se quiser, tire uma carta pra cada uma e escreva o que vier, sem se preocupar em ficar bonito ou coerente.
Numa leitura sobre trabalho, por exemplo, alguém sente uma irritação enorme ao lembrar de uma colega. Puxando o fio, descobre que a raiva nem é tanto da colega. Vem de ter aceitado, meses atrás, uma divisão de tarefas injusta sem abrir a boca. A raiva estava defendendo uma parte dela que queria ser levada a sério. Entender isso não resolve a situação sozinho, mas muda bastante a conversa do dia seguinte.
É esse tipo de descoberta que uma leitura feita com calma ajuda a encontrar. Aquilo que era um incêndio sem forma ganha um endereço.
Cuidado com a leitura como arma
Tem um risco que merece ser dito com franqueza. Com raiva, dá vontade de usar o tarot pra confirmar que a razão está do nosso lado. Aí cada carta vira peça de acusação e a leitura se transforma num processo contra alguém que nem está ali pra responder.
Dá pra perceber quando isso está acontecendo. Você se pega tirando carta atrás de carta sobre a outra pessoa, querendo saber o que ela pensa, o que esconde, se vai se arrepender. Ou sente vontade de fotografar a tiragem e mandar pra alguém, como se aquilo provasse alguma coisa. Nessa hora, largue o baralho. Carta não serve de prova contra ninguém.
O cuidado vale também quando você lê pra outras pessoas. Se quem está consultando com você começa a se exaltar, insistir na interpretação só piora. Escute, ofereça uma pausa e, se for o caso, encerre com delicadeza.
Da raiva pra ação possível
A raiva que só roda por dentro cansa. Quando vira ação, pode fazer muito bem. Depois de entender o que ela está dizendo, pergunte: "o que está ao meu alcance agora?".
Pode ser aquela conversa difícil que você vem empurrando. Pode ser um limite novo, dito sem rodeio: "isso eu não aceito mais". Pode ser se afastar de alguém. E há situações em que não dá pra fazer nada em relação à outra pessoa, porque ela já saiu da sua vida ou porque falar seria perigoso. Então a ação possível é cuidar de você: escrever uma carta que nunca vai ser enviada, contar a história pra uma amiga de confiança, procurar terapia.
As cartas podem ajudar a enxergar essas saídas, sem precisar escolher por você. Só você sabe o que é seguro e o que cabe na sua vida.
Quando a raiva é grande demais
Se a raiva anda muito frequente, se está atrapalhando seus relacionamentos, o trabalho ou o sono, ou se vem junto com vontade de machucar alguém ou a si mesmo, é hora de buscar ajuda profissional. Um psicólogo pode te acompanhar num processo que leitura de cartas nenhuma substitui. O tarot pode continuar como um espaço pra pensar, mas não cura nem trata. Se em algum momento vier a vontade de se machucar, ligue para o CVV, no 188: a ligação é gratuita e o atendimento funciona 24 horas, também por chat em cvv.org.br.
E se a raiva nasce de uma situação de violência que você está vivendo, sua segurança vem primeiro. Procure pessoas de confiança e os serviços de apoio da sua cidade. Nenhuma carta passa na frente disso.
A raiva como parte do caminho
Com o tempo, muita gente percebe que as leituras que mais mexeram com a vida não foram as mais bonitas. Foram as que cutucaram algo incômodo. A raiva que aparece numa tiragem pode abrir a porta pra um cuidado consigo que vinha ficando pra depois.
Então, na próxima vez que o rosto esquentar diante das cartas, tente não fugir e nem explodir. Respire, dê nome, espere a poeira baixar e pergunte, com curiosidade: "o que você quer me mostrar?". Às vezes a resposta é exatamente o empurrão que faltava pra você se respeitar um pouco mais.
